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A Ilha do Sri Lanka é um pequeno universo que contém tanta diversidade cultural, paisagística e climática quanto certos países dezenas de vezes maiores

Quem o afirmou foi Sir Arthur C. Clarke em The View from Serendip. Sim, o mesmo Arthur C. Clarke que todos os sábados nos anos 80 nos entrava em casa via RTP por volta da hora do almoço com O Mundo Misterioso de Arthur C. Clarke, o mesmo que escreveu a celebrizada obra no cinema por Stanley Kubrik 2001: Odisseia no Espaço e que em 1956 se instalou nesta ilha magnífica para nunca mais a abandonar. Ao conhecê-la melhor é impossível não compreender a escolha do escritor britânico e muito difícil evitar sentir uma pontinha de… inveja…

Cenário diversificado e multicultural

Banhado pelas águas do Índico, a sudoeste da Baía de Bengala, o Sri Lanka deixa à sua geografia e localização o deslumbre de quem o visita. O facto de contar com um ecossistema de mais de sete mil hectares de manguezais representou um importante papel na sua protecção contra as ondas do tsunami que, em 2004, assolaram a sua costa. Terra de climas tropical seco e equatorial, encontra no centro do território a região montanhosa e planáltica onde, com temperaturas mais frescas, crescem o chá e o café.

Diversificado e multicultural, foi aqui que foi filmado o clássico A Ponte do Rio Kwai, em 1957, com Alec Guinness e William Holden, embora a narrativa remeta para a Tailândia o suposto cenário da obra. Também Indiana Jones e o Templo Perdido foi aqui rodado em 1984. Apesar de as filmagens estarem previstas decorrer na Índia, o governo considerou o argumento ofensivo e exigiu bastantes alterações ao guião e para evitar mais atrasos, Kandy, na província central, acabou por representar a alternativa ideal.

Morada de muitas religiões, etnias e línguas, integra povo tamil (hinduístas e católico-romanos) indianos, muçulmanos, burgheres (“cidadãos” em holandês e na verdade mestiços de holandeses e cingaleses, estes últimos budistas), malaios e cafres, o Sri Lanka recorda de 29 a.C. o Cânone Páli oriundo do Quarto Concílio Budista, revelando-se uma nação com forte herança budista. Esta é, por sinal, a religião de cerca de 70 por cento da população, que em grande maioria segue a escola Theravada, logo seguida pelo hinduísmo e depois pelo islamismo e o cristinanismo.

Cantado por Camões e disputado por muitos

Cantado na obra de Luís de Camões como Taprobana e depois da Idade Média conhecido como Ceilão (até 1972), o Sri Lanka surge logo na primeira estrofe de Os Lusíadas como ponto de referência ilustrativo da superioridade náutica dos portugueses lançados nas grandes navegações da odisseia nacional. Serviu nos dias da Rota da Seda como importante ponto estratégico, mantendo este estatuto até à Segunda Guerra Mundial. A sua história recente foi fortemente marcada por uma guerra civil que durou cerca de trinta anos, terminando apenas em 2009 com a derrota da minoria independentista Tigres de Libertação do Tamil Eelam.

Com cerca de 22 milhões de habitantes, o país vive actualmente um período conturbado perante a escassez de dólares que garantam a importação de bens de primeira necessidade, o que tem vindo a causar a revolta de todo o país. Apesar de já ter solicitado assistência financeira de emergência ao Fundo Monetário Internacional, as discussões sobre a mesma encontram-se ainda em curso num ponto em que o Sri Lanka se encontra também em incumprimento de uma dívida externa que ronda os 47,5 mil milhões de euros, tendo a moeda nacional desvalorizado 44,2% em relação ao dólar americano e a inflação registado uma subida de 22,8% em Abril passado.

Viveu um período áureo no século XII, quando Prakrama Bahu, o rei cingalês derrotou o povo tamil e unificou a ilha invadindo logo de seguida a Índia e a actual República do Myanmar. País mítico no Velho Continente em virtude das suas especiarias, sobretudo a canela, viu nos portugueses os primeiros europeus a chegar às suas margens. Ao comando vinha D. Lourenço de Almeida. Estávamos em 1505 e a ilha dividia-se em sete reinos distintos que mantinham guerrilhas entre si. Fragilizados por esta razão, foram facilmente invadidos por Portugal, que começou por ocupar Cota, a capital, fundando em 1517 a cidade de Colombo.

Depois dos portugueses foram os holandeses a tomar a ilha e durante as guerras napoleónicas o Reino Unido, tornando-se então colónia real. Seria nesta altura que se verificaria a introdução do cultivo do chá, do café e da borracha na região montanhosa. No passado tinham sido os árabes a estabelecer-lhe ali, em Serendib como era conhecida no século X.

Ainda de Portugal e na alma do Sri Lanka

Dos 150 anos que Portugal ali esteve presente resta a fortificação portuguesa, erguida como capela franciscana e depois como prisão de cingaleses que se opunham ao modelo de domínio português, e a criação de feitorias como Galle, Colombo, Jafanapatão, Negumbo, Baticalo e Tricomalee. Os dias desta memória viajam facilmente até hoje nos apelidos de mais de metade da população, sendo frequente encontrar um Pereira, um Fernandes, Sousa, Silva ou Fonseca, mas a influência lusitana não fica por aqui, tendo um estudo de Hugo Cardoso, investigador da Faculdade de Letras de Lisboa, identificado uma comunidade de milhares de pessoas falantes de crioulo cuja origem está na presença portuguesa do passado, revelando também que o estilo de música Baila que ali é muitíssimo popular encontra igualmente raízes em Portugal, mais especificamente na presença portuguesa naquele território.

30 anos de lágrimas

De um país que viveu cerca de três décadas de conflito, há quem diga que a sua geografia em forma de lágrima será irónica visto a gravidade dos conflitos e os desentendimentos entre as diversas comunidades religiosas e que se calcula terem causado mais de 70 mil mortos. Talvez um dos episódios mais marcantes tenha sido o da morte do, então, primeiro-ministro indiano Rajiv Gandhi em 1991. O acontecimento foi despoletado por uma mulher suicida ao serviço da força independentista, que por seu turno atentou contra civis como militares, sendo tanto esta força como o exército cingalês acusados de abusos dos direitos humanos por várias organizações como a Human Rights Watch ou a Amnistia Internacional.

Cota e Kandy

“Ilha resplandecente” em sânscrito, “terra dos leões” em páli ou “ilha do rei Rawana”, o Sri Lanka tem capital em Cota, um subúrbio da antiga capital Colombo. Esta já aquando da unificação da ilha, no século XV, assumira o título de capital mantendo-o ao longo de 150 anos e representando a principal base portuguesa no Ceilão do século XVI. Cota situa-se numa região circundada por lagoas, rios e pântanos, tendo a sua urbanização voltado a acontecer já no século XIX. Cercada por colinas, a cidade de Kandy, no interior, representa a última capital ainda em tempo de reis, situando-se no planalto central e atravessando uma área de plantações tropicais, principalmente de chá. Morada do Templo da Relíquia do Dente Sagrado datado do século XVI e um dos lugares mais sagrados do mundo budista (que originalmente combateu a ocupação portuguesa, holandesa e britânica), foi declarada Património Mundial pela UNESCO em 1988.

Uma celebração a não perder

É em Kandy que, todos os anos em Junho ou Agosto, se celebra o Festival Kandy Perahera e que em 2022 será comemorado entre 2 e 12 de Agosto. Esta grande festa representa um símbolo budista ímpar da cultura do Sri Lanka que conjuga dança com a presença de elefantes ricamente ornamentados. No Kandy Perahera os dançarinos apresentam-se com vestes coloridas interpretando o folclore tradicional à medida que desfilam pelas ruas lado a lado com os elefantes. Acredita-se que este festival reúne duas procissões independentes mas que se relacionam – Esala e Dalada –, a primeira consistindo num ritual oriundo do século III a.C. e destinado a interceder junto dos deuses pela queda de chuva e a segunda terá nascido quando a Relíquia do Dente Sagrado de Buda foi trazida da Índia para o Sri Lanka no século IV. Para conhecer um pouco da identidade nacional, das suas tradições e fés, nada melhor do que mergulhar neste festival e deixar a alma encher-se com as crenças, a cultura e o misticismo deste paraíso índico. O perigo será sentir-se o mesmo que Clarke e ficar-se para sempre prisioneiro do fascínio que a ilha exerce sobre quem a espreita.

Sigiriya, a Pedra do Leão

Com mais de 1500 anos, Sigiriya representou no século V a capital do Sri Lanka. A sua história prende-se com uma época de enorme esplendor arquitectónico e artístico, mas também com uma narrativa de guerra e traição entre dois irmãos. Na origem do seu nome está o termo Sinha-Giri, que traduz a pedra do leão. Erguendo-se a cerca de 370 metros acima do nível do mar e outros 200 acima da selva que a cerca, Sigiriya começou por ser um mosteiro mas apenas até Kashyapa usurpar o poder ao irmão depois de assassinar o pai, tornando-se ele próprio o rei. Tinha vencido a guerra com o sul da Índia e considerava ser o merecedor herdeiro do reino pelo que acabou por ceder à própria ambição e tratar de modo tão reprovável o próprio pai e também o irmão.

Receando vingança, Kashyapa deslocou a capital do reino para Sigiriya, construindo ali um complexo palaciano e uma fortaleza de modo a obter uma visão francamente privilegiada e de difícil acesso por um eventual exército inimigo. Kashyapa viveu ali 17 anos, altura em que o irmão empreendeu uma severa batalha contra si, obtendo o favoritismo do povo. Abandonado, Kashyapa acabaria por suicidar-se e o irmão assumiria, então, o governo do reino transferindo de imediato a capital para Anuradapura.

No topo da grande rocha granítica manter-se-ia em funções o antigo mosteiro budista, que seria subitamente abandonado no século XIV. Daqueles tempos e em termos arquitectónicos resta apenas parte da fortaleza que no passado ostentou o formato de um gigantesco leão agachado. Resultante do magma de um antigo vulcão inactivo, da magnífica escultura resultam agora apenas as patas. Muitos consideram Sigiriya como uma Oitava Maravilha do Mundo e a verdade é que o esplendor artístico e arquitectónico da cidadela são absolutamente deslumbrantes, tendo-lhe valido a classificação de Património Mundial da UNESCO em 1982.

Neste ponto encontramos frescos coloridos de mulheres de cintura esguia e seios fartos que, ao que conta a lenda, pertenceriam ao harém do próprio Kashyapa num total de mais de 500 mulheres. Os jardins aquáticos, junto à entrada principal, ostentam piscinas de banho e todo um sistema hidráulico de enorme sofisticação que ainda hoje funciona, proporcionando água a canais, lagos, pontes, bombas de água e cisternas. A parede da rocha apresenta-se de tal modo polida que se acredita ter em tempos servido de espelho ao próprio rei.

Após o seu abandono, no século XIV, e até 1831, Sigiriya permaneceu desconhecida, sendo acidentalmente descoberta pelo major do exército britânico Jonathan Forbes. Na década de 1890 o arqueólogo Harry Charles Purvis Bell trabalhou no local desenterrando alegados tesouros que terá enviado para Inglaterra. Seriam, contudo, necessários mais cerca de 20 anos para que este lugar único no mundo regressasse à atenção humana, com a visita do explorador John Still em 1907 e a renovação do interesse naquele magnífico sítio. Muito mais tarde, em 1982, empreenderam-se novos esforços para restaurar a fortaleza, que entretanto representa um dos mais antigos monumentos do país, pelo que qualquer viagem até este maravilhoso destino asiático não estará completa a não ser que inclua Sigiriya, a Pedra do Leão.

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