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Quem pela primeira vez visita a Escócia pode esperar viver esta experiência em permanente deslumbre. À medida que se progride no território as surpresas e o espanto sucedem-se a cada momento. A geografia, a História e a beleza natural são absolutamente esmagadoras e também as suas gentes. De Edimburgo, a capital, até à Ilha de Skye ou a Inverness, os percursos marcam-se pelas viagens no tempo, pela narração de lendas, por magia e pela inesgotável alegria de um povo que se torna impossível não amar

Primeira experiência, a chegada a Edimburgo. Dominada pelo Castelo contruído sobre rocha vulcânica, a cidade é mundialmente conhecida pelo Festival de Edimburgo, realizado anualmente em Agosto. Ao longo de três semanas, a cidade vibra com a arte e cultura que dela tomam conta. O Festival Internacional de Edimburgo decorre desde 1947, tendo sido criado no pós-guerra com a intenção de fazer florescer o espírito humano. Com apresentações de ópera, teatro, música e dança, rivalizou nas décadas de 50, 60 e 70 com o também famoso Fringe, criado no mesmo ano, que decorre na mesma altura e cujas actuações vão desde os clássicos da Grécia antiga até Shakespeare ou Beckett e a peças experimentais que normalmente não são admitidas nos festivais mais formais. As três últimas semanas de Agosto enchem as ruas da cidade com uma miríade de ofertas artísticas entre as quais se torna mesmo difícil escolher, vivendo-se o verdadeiro espírito cultural e a democratização da arte. Não menos importantes, decorrem ainda em paralelo o Festival de Jazz e Blues, o Festival Internacional do Livro e o Festival da Gente de Edimburgo, sem esquecer o Tatoo Militar, onde as personagens principais são a gaita-de-foles e os fogos-de-artifício no Castelo de Edimburgo. Mais tarde, em Novembro, a cidade veste-se de Natal, chamando a si uma série de atracções como a encantadora Feira de Natal, que se realiza ao longo da Princess Street. Declarada a primeira Cidade de Literatura pela Unesco, Edimburgo assistiu ao nascimento ou à presença de autores mundialmente famosos como James Boswell, Robert Louis Stevenson, Conan Doyle, Walter Scott e J. K. Rowling. A zona antiga da cidade transpira História. Trata-se de um labirinto de ruas empedradas, vielas estreitas e becos escuros, tornando-se muito fácil acreditarmos que, de repente, passámos por um portal do tempo e nos encontramos no passado distante. No Castelo de Edimburgo é possível visitar as joias da coroa escocesa e também a famosa Stone of Destiny, um antigo símbolo da monarquia escocesa utilizado durante séculos aquando da proclamação dos reis. Encarado como um objecto sagrado, desconhecem-se ainda as suas origens mais remotas. Em 1296, o Rei Eduardo I de Inglaterra roubou esta pedra aos escoceses e com ela mandou construir um novo trono para Westminster, tendo desde então sido utilizada nas cerimónias de coroação dos monarcas de Inglaterra. A 25 de Dezembro de 1950, quatro estudantes escoceses removeram-na da abadia, surgindo três meses mais tarde a cerca de 800 quilómetros, no altar-mor da Abadia de Arbroath. 1996 marcaria o ano em que a mesma seria oficialmente devolvida à Escócia representando actualmente um dos grandes tesouros nacionais. Ao início da tarde, ainda no castelo, será possível ouvir o One O’Clock Gun, que é disparado todos os dias à excepção dos domingos, precisamente às 13.00, permitindo assim que todos os cidadãos e visitas acertem os seus relógios. Depois desta hora, será tempo para percorrer a encantadora Royal Mile e visitar as diversas lojas, pubs, restaurantes e edifícios históricos, como a famosa Catedral de St Giles. Nome popular para a sucessão de ruas que formam a principal via do centro histórico de Edimburgo, a Royal Mile mede aproximadamente uma milha escocesa (cerca de 1800 metros) e estende-se entre os dois pontos históricos da cidade, partindo do Castelo de Edimburgo até à Abadia de Holyrood. Actualmente acolhe uma mistura ecléctica de lojas turísticas, bares e atracções históricas e onde podemos encontrar estátuas que homenageiam escoceses brilhantes como David Hume e Adam Smith. Integra-se na chamada Old Town, que juntamente com a New Town foram classificadas como Património Mundial pela Unesco em 1996.

De Edimburgo, de Glasgow e de lendas

Mas por mais encantadora e rica que Edimburgo seja, tanto na arquitectura como na própria dinâmica da cidade, no passado que soube preservar e até nas suas gentes, alegres e folionas, que não hesitam em, num qualquer pub, se sentar à mesa de estranhos para com eles partilharem uma lenda ou uma canção, a Escócia é muito mais do que a sua capital. Dirigimo-nos por isso até Glasgow, a oeste do território, para encontrarmos uma cidade portuária ainda nas Terras Baixas escocesas. Famosa pela arquitectura victoriana e pela arte nova, representa o legado de prosperidade dos séculos XVIII a XX, quando foi impulsionada pelo comércio e pela construção naval constituindo hoje um centro cultural nacional e um ponto onde o gaélico escocês adquire outra dimensão, com o inglês a fechar-se e a ser mais difícil de compreender. Chegado à Escócia no século V pela mão dos celtas provenientes do norte da Irlanda, o gaélico substituiu a língua dos pictos, que na altura dominava. Com a assimilação da língua dos anglo-saxões e dos vikings, esta língua foi sofrendo um gradual abandono, apenas salvaguardado pelas escolas de bardos nas Ilhas Hébridas, que representaram o seu reduto uma vez que durante séculos foi duramente reprimida na Escócia. Subimos até Loch Lomond, a 23 quilómetros para norte, e um novo mundo se abre perante o nosso olhar. Situado na fronteira ocidental entre as Terras Baixas e as Terras Altas, Loch Lomond, é um lago de água doce com cerca de 40 quilómetros de comprimento e um máximo de oito de largura. Na sua margem destaca-se a silhueta do Ben Lomond, o cume mais meridional do maciço de Munro, com 974 metros de altitude. Aqui, a Natureza e as características do relevo, a vegetação, o lago e a montanha rapidamente nos ajudam a compreender melhor a natureza do povo escocês, herdeiros gaélicos profundamente aguerridos e brutais na sua impetuosidade, mas de coração puro e irremediavelmente romântico. Integrado no National Trossachs Park, constitui o seu coração e o local onde o território se divide entre as Terras Altas e as Terras Baixas, com visíveis diferenças no tipo de solo e de rocha que podemos observar, com o sul a exibir campos verdes e terra cultivada e o norte a desafiar-nos com as suas imponentes montanhas. Será indispensável um passeio a pé nesta região de florestas e bosques onde sem dúvida se faz sentir um outro ambiente que mais parece retirado de fábulas e lendas, ora com pequenos arbustos a assemelhar-se a uma enigmática silhueta de um duende, ora com uma brisa que faz lembrar o cântico de fadas atentas a quem passa. Acelere-se portanto o passo antes que a noite caia, procure-se estada na aldeia mais próxima e guarde-se tempo para ao jantar ouvir as histórias locais. Os anfitriões hão-de explicar a razão de todas as noites deixarem um prato de leite para as fadas e de serem comedidos com os elogios acerca de alguém, não vá o interesse daquelas despertar e recolherem para o seu mundo o elogiado já que são grandes apreciadoras de qualidades, especialmente as físicas. Assim, sempre que na Escócia um elogio se fizer acerca dos atributos de alguém, remate-se com um “God bless them Thursday”, espécie de bênção ou protecção que assegura a sua permanência no nosso mundo.

Nas Highlands

No dia seguinte será tempo de partir em direcção a Glencoe pela A82, percurso absolutamente maravilhoso, marcado pela magnificência da imensidão das suas montanhas e pelos lagos, ou lochs em gaélico, que desfilam à nossa frente. Será tempo de avistar o tão famoso Castelo de Kilchurn, debruçado sobre o Loch Awe desde o século XV e um dos mais fotografados em toda a Escócia. Constituiu a residência dos Campbell de Glenorchy, que dele cuidaram durante 150 anos até se tornarem condes de Bredalbane e se mudarem para o Castelo de Taymouth, deixando-o ao abandono em finais do século XVIII. A surpresa com que, na estrada, se dobra uma curva e ele surge ali, no meio de absolutamente nada, vigilante, em ruínas, aparentemente esquecido no e pelo tempo é absolutamente esmagadora, tornando o percurso até Glencoe para sempre inesquecível.

A aldeia de Glencoe situa-se onde em 1692 decorreu o Massacre de Glencoe, no qual 38 membros do clã MacDonald de Glencoe foram mortos à mão de tropas militares sob o comando do Rei William III (Guilherme d’Orange) no seguimento da Revolta Jacobita de 1689. Ponto de partida para muitos montanhistas, Glencoe encontra-se cercada por um cenário montanhoso absolutamente espantoso, que foi palco de filmes como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, figurando como a morada de Hagrid ou como cenário da saga James Bond de 2012, Skyfall. Ali, o chamamento é para a montanha, com as temperaturas a descer, a chuva a fazer-se sentir num dos seus flancos e o sol desafiador no outro. Novamente as forças da Natureza parecem reunir-se para perscrutar quem penetra as Highlands e à medida que se progride na caminhada, mais distante parece a montanha encontrar-se, como que num jogo em que esta desafia o caminhante a arriscar-se mais e mais no seu encalce. A certo ponto surge a questão de estarmos ou não no mesmo lugar já que caminhando não parecemos sair de ponto algum e que a montanha na sua imponência se mantém absolutamente impenetrável. Chegam os locais, preocupados, já em busca dos forasteiros incautos não vão os pântanos escondidos aqui e acolá engolir desrespeitosos estrangeiros que ignoram que é a montanha quem escolhe e decide sobre a sua conquista. A noite começa a cair numa brusquidão surpreendente. O aviso foi mais que bem-vindo. É tempo de regressar.

Fort William e as revoltas jacobitas

Apenas a cerca de meia hora de carro pela A82 rumo a Norte, chegamos a Fort William, o segundo maior assentamento nas Terras Altas (após Inverness). Situada no sopé da Montanha de Ben Nevis, o ponto mais alto da Escócia e também do Reino Unido, com 1345 metros de altitude, é outro ponto de partida de muitos montanhistas, representando também um ponto de referência histórico. O forte foi inicialmente erguido pelas forças de Cromwell em 1654 com a finalidade de pacificar os clãs locais, especialmente o de Cameron, sendo conhecido como a Guarnição de Inverlochy, consistindo numa fortificação de madeira. Juntamente com Fort Augustus e Fort George representava um ponto de defesa responsável por suprimir os clãs locais que em 1690 sofreria uma alteração, passando a apresentar paredes em pedra de seis metros de altura e sendo rebaptizado em homenagem a William de Orange como Fort William e dando assim nascimento a uma pequena vila nas suas imediações. A sua capacidade defensiva foi duramente testada quando em 1746 cerca dos seus 600 homens ficaram ali cercados pelo Exército Jacobita, sobrevivendo quase intacto. Quando os clãs das Terras Altas foram dominados e a ameaça jacobita diminuída o forte foi perdendo a sua importância.

Skye, Lewis e Harris e o espírito dos clãs

De Fort William avançamos para a Ilha de Skye, ligada à costa noroeste da Escócia por uma ponte e conhecida por paisagens acidentadas, aldeias piscatórias e castelos medievais. Tratando–se da maior ilha do arquipélago das Hébridas Interiores, apresenta o mais dramático cenário de todo o país, com uma costa recortada com penínsulas e lagos estreitos que espelham o seu magnífico interior montanhoso. Skye foi ocupada ainda no período Mesolítico e a sua história narra o longo período de permanência dos clãs MacLeod e MacDonald, terminado apenas no século XVIII, aquando da supressão da revolta jacobita e que conduziu ao desaparecimento do sistema de clãs. Destaque para uma visita aos famosos castelos do Clã MacDonald (Castelo de Dunvegan e um dos mais antigos de toda a história escocesa) e do Clã MacLeod e ainda à destilaria de Talisker onde é possível provar o maravilhoso whisky de malte. Já nas Hébridas Exteriores, a Ilha de Lewis e Harris, representa um local absolutamente magnífico que não dispensa uma visita na descoberta da cultura gaélica, de tradições históricas e um território inesquecível onde, junto à costa, as águas são tão azuis claras que nos fazem crer que, de repente, fomos transportados para paraísos tropicais e em cujas areias brancas encontramos ovelhas que descem das superfícies rochosas ali próximas. Embora o seu nome sugira que nos referimos a duas ilhas em concreto, na realidade Lewis e Harris representam duas partes de uma mesma ilha, com Stornoway junto à costa leste a servir de maior cidade do arquipélago. A ilha é alcançada por ferry, sendo impossível não nos sentirmos esmagados com a diversidade geográfica que apresenta numa sucessão de cenários montanhosos, de colinas, de planaltos rochosos, pântanos e de praias de areias imaculadamente brancas.

É assim a Escócia, país antigo cuja sociedade tradicional se baseou no sistema de clãs e cujos membros eram sinalizados por meio de um nome e das cores do tartan, o motivo presente no kilt. Terra de bravos homens e de ligações fortes, de lealdade e de coragem, exprimia muito do seu espírito no gaélico onde Mac significa “filho” e por isso MacDonald, por exemplo, seria “filho de Donald”, afirmando assim a importância do conceito sucessório e de família. Após esta profunda significância de toda uma cultura que a língua traduz, nada melhor do que o poema de Robert Burns para descrever a alma escocesa que perdura até aos dias de hoje e que “contamina” aqueles que pelo território escocês se aventuram: Wherever I wander, wherever I rove, The hills of the Highlands forever I love.

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