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Namíbia – Terra surpreendente

O sortilégio de uma terra surpreendente.

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NAMÍBIA

O sortilégio de uma terra surpreendente.

Alguns destinos são puramente hedonistas; outros, poucos, provocam sensações tão intensas que fazem repensar a vida engradecendo-a. A Namíbia, um dos lugares mais singulares e avassaladores do globo, apresenta-se como um país de um magnetismo demiurgo que o coloca no topo da lista de visitas obrigatórias de qualquer viajante sério. Porque tudo na Namíbia é primordial, indemne, feito a uma escala desmesurada e, por isso, magnificamente inumana.

Texto Maria João Castro  |  Fotos Marta Galvão de Melo

O primeiro europeu a viajar até a Namíbia foi o português Diogo Cão, que em missão exploratória ao longo da costa ocidental da África, se deteve brevemente na Costa dos Esqueletos, em 1485, onde ergueu uma cruz de arenito. Essa cruz é atualmente conhecida como a Cruz do Cabo e sua importância histórica é quase superada pelo facto de haver ali uma colónia de mais de 100.000 lobos-marinhos. Em 1487 Bartolomeu Dias foi o visitante seguinte, ao circundar o Cabo da Boa Esperança e, três séculos mais tarde, os holandeses reclamaram o território, integrando-se no entanto, nas colónias do domínio inglês, passando a Alemanha a administrar o território do Sudoeste Africano. No final da Segunda Guerra Mundial, a Namíbia integra-se na União Sul-Africana, e em 1990 conquistou a independência.

Sendo a Namíbia o segundo país com menor densidade populacional do globo (a seguir à Mongólia), com pouco mais de dois milhões de habitantes no total, distribuídos por cerca de aproximadamente 800 mil quilómetros quadrados de território, o Homem dilui-se no vasto território, tornando-se quase invisível. Este pedaço de África abençoado divide-se entre o parque de Etosha a norte, o semi deserto de Kalaharia leste, o rio orange a sul, e o deserto do Namibe e o Atlântico a oeste.

Da simpática e tranquila capital, Windhoek, parte-se para descobrir Etosha, o parque natural de excelência do país. Veados, zebras, chitas, elefantes, rinocerontes, leões, gnus, búfalos, girafas, leopardos, todos confluem numa terra à primeira vista estéril e desolada. Um espaço protegido de caçadores furtivos e outros perigos para a conservação da vida selvagem, cuja geografia e morfologia é a razão da sua fama mundial e do seu carácter único na observação de vida animal. Isto numa aridez do terreno que faz com que os pontos de água constituam os locais de eleição reunindo, na mesma área restrita, uma variedade de fauna apetecível acessível às objetivas das máquinas fotográficas dos turistas. É só esperar que, mais cedo ou mais tarde, a procissão de espécies irá passar diante dos nossos olhos…deslumbrando os sentidos. À saída do parque perdura a reminiscência da chita, velocidade pura, corre por entre as acácias verdes e as espinhosas, e o capim descarnado.

O dia começa luminoso com um sol que rasa a terra pontilhada de arbustos. Visitamos uma aldeia Himba, o último grupo étnico semi-nómade da África, dono de tradições muito peculiares – como por exemplo o facto de as mulheres moldarem o penteado com “Otjize”, uma pasta feita à base de manteiga, gordura e ocre vermelho, que aplicam no corpo e também nas tranças, que caem em fiadas de rastas, conferindo-lhes o ar de uma inverossimil peruca. Há também uma mulher hereró com o seu traje típico, parente genealógica e vizinha dos himba. O calor tem sido a “armadura” deste povo insubmisso em cuja terra os termómetros são impiedosos.

Na vastidão do território ressequido africano, cruzamo–nos com aldeias de pigmeus e de bosquímanos, mas estes mal se veem, atarefados no seu quotidiano campestre.

Atravessamos Damaraland e o deserto do Namibe – um dos mais antigos do mundo – numa das áreas mais cénicas na Namíbia. Não muito distante situam-se Twyfelfontein – um local onde se situam belíssimas gravuras rupestres –, e os OrganPipes, uma série de pilares expostos à erosão do tempo que lhes confere formas inusitadas.

Sinto-me parte de uma pintura fauve, onde só existe espaço para o ardor passional no uso das cores, numa visão sintética da natureza, sem qualquer espécie de trimensionalidade e onde a realidade é deformada por um certo estado de espírito. Os pensamentos direcionam-se para a abstração: é como se houvesse uma libertação da realidade objetiva e os sentidos caminhassem de encontro à realidade que cada um experiencia à sua maneira. Há quem se aborreça com o panorama envolvente, eu delicio-me com o mar de areia, mudo e perfumado de quimeras.

Ao sabor das horas que passam, percorrermos a Costa dos Esqueletos, que se revela fantasmagoricamente convidativa, com as suas embarcações encalhadas sobre a areia, levando-nos a inventar histórias mil ou não fosse a ruína um dos maiores estimulantes para a imaginação… Envolta numa neblina impenetrável, correntes cruzadas perigosas e recifes traiçoeiros, esta costa tem sido um cemitério para navios, enterrando-os para todo o sempre nas brumas do Atlântico.É um território inóspito dentro de uma paisagem desoladora mas indiscutivelmente sedutora. Aos náufragos que alguma vez atingiam a praia, vencendo águas demasiado frias e correntes sobre-humanas, só lhes restava festejar o adiamento da morte porque os esperava um deserto quente e seco, ainda mais cruel que o oceano.

A aragem varre as arestas das dunas num movimento dançarino, que não é mais do que uma coreografia de um mar de cristais de areia que se estende até ao Atlântico, o verdadeiro mar oceânico de água salgada e cheiro a maresia, o melhor perfume do mundo.

A paragem no Cabo da Cruz faz-se não só para apreciar a réplica do padrão de Diogo Cão assinalando o limite extremo da sua epopeia, mas para dar conta de uma numerosa colónia de leões-marinhos residentes e permanentes destas paragens.

A paragem de repouso acontece em Swakopmund, capital de vilegiatura de ambiente colonial da Namíbia, que nos aguarda altaneira.É uma pequena urbe alemã deslocada no espaço. Há edifícios coloniais belos e imponentes, ruas aprumadas, e todas as comodidades de uma cidade europeia.

Já com nova página no calendário, passamos mais um dia na estrada com duas paragens obrigatórias: a tabuleta que indica o Trópico de Capricórnio e Solitaire, um lugar em ruína onde alguns destroços de automóveis se enterram na areia muda. A paragem acontece devido a um pneu furado. O posto de gasolina parece ser o único ponto de vida: tudo o resto é quietude.

Continuamos marcha para sul e eis que, deslumbrante, um arco-íris se desenha sobre a montanha; e outro, e outro. A intensidade e definição das cores faz pensar que os deuses demiurgos decidiram atordoar o viandante com tamanha pintura.

Dirigindo-nos à “cereja no topo do bolo”, o Parque Natural de Namib-Naukluft onde se encontram as famosas dunas de Sossusvlei. Por entre o baile de sombra e luz, as dunas em tons carmim e dourado são o cenário para fósseis de troncos de árvores retorcidos de anos e abandonados às intempérides de um deserto singular.

Ainda a aurora não se anuncia quando um passeio de balão revela, a desmedida escala do deserto, e das dunas mais altas do mundo. A magia do amanhecer sobre um cenário diáfano e melífluo fixa-se na memória tornando o momento único.

A noite trás um céu pontilhado a diamantes. Fixo as estrelas do deserto, as mais brilhantes e belas do mundo, como se jamais as quisesse esquecer, como se as carimbasse na memória para recuperá-las na melancolia da lembrança…

Aproveitando que se está no deserto, é extremamente recompensadora uma visita ao Deadvlei– o “vale morto” uma imensa planície branca no meio das dunas de Sossusvlei. Composto por um solo de argila branca, resultado da seca de um rio provocado pelo avanço das dunas, a paisagem de Deadvlei assemelha-se a uma pintura, devido às suas acácias que morreram ali por falta de água contrastando com o branco do chão, o vermelho das dunas e o azul do céu.O sol e o clima seco não deixaram os troncos se decomporem, permanecendo intactos durante centenas de anos, numa surreal floresta petrificada de troncos e galhos artisticamente retorcidos.

O adeus a esta África excelsa mantém no ar a promessa de um reencontro que, mais cedo ou mais tarde, acontecerá, ou não chegássemos sempre ao sítio onde nos esperam…

 

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