Entre vulcões, rum, poesia e memória colonial, a Martinica mantém-se um dos territórios mais contraditórios e fascinantes do planeta
Fotos: Martinique Tourisme e D.R.
A primeira impressão quando se chega a Martinica é a de temos alcançado um território suspenso entre geografias, memórias e pertenças contraditórias. Tudo parece simultaneamente europeu e caribenho. O aeroporto presta homenagem a Aimé Césaire, poeta, ensaísta e uma das figuras mais influentes do pensamento anticolonial do século XX. Nas prateleiras dos supermercados acumulam-se produtos vindos da metrópole francesa, paga-se em euros, seguem-se eleições presidenciais francesas e aplicam-se directivas europeias. No entanto, basta ouvir o ritmo do crioulo nas ruas, sentir a omnipresença da herança africana ou observar a relação quase visceral da ilha com a música, a comida e a memória colonial para percebermos que a Martinica nunca pertenceu inteiramente ao imaginário francês.
A Martinica é um paradoxo geográfico e político difícil de encontrar noutro lugar do Mundo. Oficialmente, é França. Administrativamente, faz parte da União Europeia, mas culturalmente inscreve-se no universo caribenho das Caraíbas, um espaço de colonização, escravatura, mestiçagem, resistência cultural, música, violência histórica e permanente reinvenção.
Poucas ilhas concentram tantas dimensões contraditórias num território tão pequeno e talvez seja precisamente isso que a torna tão singular. Não se trata apenas de um postal tropical, mas de um território onde o passado continua vivo de forma quase física, onde a paisagem guarda cicatrizes históricas, a beleza natural convive com desigualdades herdadas do sistema colonial, onde a literatura teve peso político real e no qual a identidade permanece uma pergunta em aberto.
Moldada pelo fogo
Vista do mar, a Martinica parece surgir de uma explosão vegetal. Cobertas por floresta tropical, as montanhas mergulham directamente no Caribe. A humidade é intensa. As nuvens agarram-se às encostas vulcânicas e o verde parece excessivo, quase agressivo. Toda a geografia da ilha foi moldada pelo fogo. A norte ergue-se o Monte Pelée, o vulcão que desde há séculos domina o imaginário martinicano. Não se trata apenas de uma montanha; é, na verdade, uma presença psicológica. Em 1902, entrou violentamente em erupção e destruiu Saint-Pierre, que era então a cidade mais importante da ilha. Em poucos minutos morreram cerca de 30 000 pessoas. A temperatura da nuvem ardente ultrapassou os 1000 graus… A destruição terá sido tão rápida que muitos habitantes morreram exactamente onde estavam, sentados em cafés, nas ruas, em lojas ou em carruagens. A cidade praticamente desapareceu, numa tragédia que marcou profundamente a história mundial da vulcanologia. A Martinica transformou-se, contudo, em algo mais íntimo, num marco traumático da identidade moderna da ilha.
Antes da erupção, Saint-Pierre era conhecida como “a pequena Paris das Antilhas”. Tinha teatro, jornais, comércio internacional, elites sofisticadas e uma intensa vida cultural, representando o centro intelectual e económico da colónia francesa. Depois do desastre, Fort-de-France assumiu o protagonismo político e económico da ilha, mas Saint-Pierre nunca recuperou totalmente. Ainda hoje, a sensação que desperta ao caminharmos pelas suas ruínas é estranha, sugerindo uma parcial fossilização do colonialismo francês sob as cinzas vulcânicas.
Os martinicanos terão aprendido a viver com esta permanente memória da catástrofe. O vulcão tornou-se metáfora nacional simultânea de beleza, de fertilidade e de destruição.
Antes de França: a ilha apagada de memória europeia
Muito antes de existirem plantações, açúcar ou administradores franceses, a Martinica pertencia aos povos indígenas arawak e caraíba, acreditando-se que os primeiros habitantes terão ali chegado vindos provavelmente da América do Sul há mais de dois mil anos. Viviam da pesca, da agricultura e da navegação entre ilhas, mantendo complexas redes comerciais e um profundo conhecimento dos ventos e das correntes caribenhas.
Quando os franceses ali desembarcaram, em 1635, iniciaram rapidamente a ocupação militar e agrícola da ilha. Os caraíbas resistiram ferozmente. Ao contrário da imagem simplificada criada pela historiografia colonial, não se tratavam de povos “primitivos”, mas de sociedades marítimas altamente adaptadas ao ambiente insular. A resistência indígena foi brutalmente reprimida. Muitos morreram em combate, outros foram expulsos para ilhas vizinhas e em poucas décadas a presença indígena tornou-se residual. O desaparecimento não significa, no entanto, uma total ausência e ainda hoje sobrevivem palavras indígenas no crioulo martinicano, técnicas agrícolas ancestrais e ainda conhecimentos botânicos ligados à floresta tropical. Em várias zonas rurais persistem também crenças populares associadas ao mar e às montanhas que muitos antropólogos relacionam com antigas cosmologias ameríndias.
O açúcar e a máquina colonial
A verdadeira transformação da ilha inicia-se quando os franceses se apercebem que o clima vulcânico reunia as condições perfeitas para o cultivo de cana-de-açúcar, produto que no século XVII se tornou um dos mais lucrativos do planeta e que as Caraíbas transformaram num espaço central da economia colonial assente na violência. Passou rapidamente a integrar o chamado “comércio triangular” no qual os produtos europeus eram trocados por escravos africanos que seguiam depois para plantações americanas e de onde partiam o açúcar, o rum e o café rumo à Europa. Foi em condições desumanas que milhares de africanos foram arrancados às suas comunidades e transportados para a ilha. Muitos morriam durante a travessia atlântica e os que sobreviviam eram vendidos como força de trabalho agrícola. Este género de violência não terá desaparecido da memória colectiva da ilha e, ao contrário da tradicional narrativa europeia, onde a escravatura é frequentemente apresentada como pertencendo a um passado distante, na Martinica permanece ainda profundamente presente no tecido social, fazendo-se notar nas desigualdades económicas, na composição racial das elites, na geografia das propriedades agrícolas e até nas tensões políticas contemporâneas.
Os békés, a invisível aristocracia das Caraíbas
Na Martinica, poucos temas serão tão sensíveis como o que diz respeito aos békés. O termo refere-se aos descendentes das antigas famílias brancas e que eram proprietárias de plantações. Apesar de representarem uma minoria muito pequena da população, os békés continuaram durante décadas a controlar sectores estratégicos da economia da ilha, como a agricultura, a importação alimentar, a distribuição comercial e parte do sector financeiro. Muitos nacionais identificam nesta elite económica a continuação de uma estrutura colonial nunca totalmente desmontada. O debate tornou-se especialmente intenso durante as grandes manifestações sociais de 2009, quando milhares de pessoas protestaram contra o elevado custo de vida e a concentração económica. Na prática, a Martinica vive ainda uma contradição permanente; em termos formais corresponde a uma região europeia moderna, mas continua marcada por hierarquias sociais que encontram raízes profundas no período colonial.
Aimé Césaire e a invenção da negritude
Aimé Césaire será, talvez, a figura moderna que melhor simboliza a Martinica. Poeta, político, ensaísta e pensador anticolonial, Césaire tornou-se uma das vozes intelectuais mais importantes do século XX francófono. A sua influência estendeu-se largamente para além das fronteiras das Caraíbas, projectando-se no espaço cultural global.
Nascido em 1913, estudou em Paris, onde conheceu Léopold Sédar Senghor e Léon Damas. Juntos desenvolveram o conceito de “negritude”: um movimento intelectual que procurava valorizar as culturas negras e rejeitar a ideia colonial de superioridade europeia.
Reduzir Césaire à política seria, contudo, consideravelmente injusto. A verdade é que a sua escrita mudou profundamente a literatura contemporânea. No célebre Diário de um Regresso ao País Natal, a Martinica surge como espaço poético vulcânico, brutal, cósmico e ferido. A ilha deixa de ser mero território colonial exótico para se transformar num sujeito histórico.
Césaire teve também uma relação complexa com França. Criticava violentamente o colonialismo francês, mas por outro lado defendia determinados mecanismos de integração republicana, tendo ocupado a posição de presidente da câmara de Fort-de-France durante mais de cinquenta anos, uma ambiguidade que também caracteriza a própria Martinica.
Terra de Josefina Bonaparte
Há um outro nome ligado à Martinica e que é absolutamente incontornável. Referimo-nos a Josefina de Beauharnais, mais conhecida como Josefina Bonaparte, a primeira mulher de Napoleão, que nasceu na ilha em 1763, numa plantação de açúcar pertencente à família. A ligação entre Josefina e a Martinica viria a ser profundamente controversa. Para alguns, ainda hoje simboliza o sucesso histórico de uma mulher caribenha que alcançou o centro do poder europeu, mas para muitos outros representa as características mais sombrias da aristocracia colonial. A polémica em torno do seu nome aumentou sobretudo porque, em 1802, e depois da sua abolição revolucionária, Napoleão decidiu restaurar a escravatura nas colónias francesas. Durante anos circularam acusações de que Josefina teria influenciado essa decisão, embora as provas não tivessem nunca sido identificadas. A sua estátua viria a ser decapitada e vandalizada em 2020, durante manifestações antirracistas em Fort-de-France, passando a imagem a simbolizar as contemporâneas disputas sobre memória colonial.
A língua da sobrevivência
Embora o francês represente a língua oficial, o verdadeiro coração emocional da Martinica vive no crioulo, que nasceu durante o período colonial e que mistura o francês com línguas africanas, influências indígenas e elementos de outras comunidades migrantes. Não se assume apenas como uma língua híbrida, mas sobretudo como uma forma de resistência cultural. Falar crioulo foi considerado durante muito tempo como um sinal de inferioridade social, pelo que as escolas francesas desencorajavam o seu uso e muitos pais proibiam os filhos de o falarem em casa de modo a facilitar a integração na cultura oficial francesa. Hoje, porém, existe um forte movimento de valorização identitária e o crioulo ressurgiu na música, na literatura, na rádio e na educação.
O carnaval: quatro dias de excesso e memória
Consideravelmente distante da imagem brasileira exportada globalmente, o carnaval da Martinica vive um ambiente mais ritualístico, mais político e muitas vezes mais sombrio, integrando sátira social, referências históricas, máscaras grotescas e elementos herdados de tradições africanas. Uma das figuras mais emblemáticas é o diab rouge, uma personagem vestida de vermelho com chifres e espelhos e que representa as forças caóticas e espirituais. Também um elemento central, o vidé corresponde a enormes procissões populares nas quais as multidões seguem durante horas os diversos grupos de percussão pelas ruas fora. O carnaval martinicano funciona quase como uma catarse colectiva, já que durante alguns dias as hierarquias sociais se suspendem parcialmente e a rua se transforma num espaço de autêntica libertação.
O zouk e a revolução sonora das Antilhas
Poucos géneros musicais originários de um território tão pequeno terão tido um impacto global tão impressionante como o zouk. Criado nos anos 1980 pelo grupo Kassav’, o zouk revolucionou a música popular francófona, misturando ritmos tradicionais caribenhos com música electrónica, funk, percussão africana e sonoridades modernas urbanas. O fenómeno espalhou-se rapidamente por África, pela Europa e pelas Caraíbas e em Cabo Verde influenciou directamente a kizomba. Tornou-se um símbolo da identidade ultramarina em França continental e transformou-se praticamente na música mainstream em muitos países africanos francófonos.
A ilha possui, contudo, tradições musicais muito anteriores ao zouk. O bèlè, por exemplo, mantém raízes profundas na herança africana escrava, recorrendo ao tambor, à dança circular e ao canto responsorial. Durante muito tempo as elites coloniais desprezaram estas manifestações culturais populares que hoje são vistas como património central da identidade martinicana.
Rum, a assinatura líquida da ilha
O rum não é ali apenas uma bebida alcoólica, mas uma memória histórica destilada. Na verdade, a ilha produz um dos mais respeitados runs do Mundo, o rum agrícola, feito directamente do sumo fresco da cana-de-açúcar, e não de melaço industrial, técnica que dá origem a sabores mais vegetais, secos e aromáticos e aproximando-se o resultado da lógica dos grandes vinhos franceses. A Martinica tornou-se a primeira região do Mundo a obter uma Appellation d’Origine Contrôlée para o rum e cuja produção é rigidamente regulamentada. Por outro lado, o rum também carrega o peso da história colonial, pois esteve, durante séculos, ligado às plantações esclavagistas e à economia atlântica do açúcar, tornando-se, entretanto, um património cultural e um produto identitário. O ti-punch (rum branco, lima e açúcar de cana) funciona quase como um ritual social quotidiano na Martinica.
A cozinha onde a África, a Índia e França se encontram
Na Martinica, a culinária local talvez represente uma das mais complexas das Caraíbas. A influência africana é óbvia nas especiarias, frituras e guisados; a francesa nas técnicas culinárias e nos molhos e a indiana nos caris conhecidos localmente como colombo, existindo ainda outros elementos indígenas e asiáticos ali presentes, tudo isto sucedendo numa ilha tropical com abundância de peixe, de fruta, de raízes e ervas aromáticas. O resultado teria mesmo de consistir numa cozinha profundamente mestiça. O accras (pequenos fritos de peixe condimentados) tornou-se símbolo popular da ilha. O boudin créole mistura sangue, especiarias e malagueta numa versão caribenha da morcela europeia. O colombo de cabri mostra claramente a influência indiana trazida por trabalhadores contratados após a abolição da escravatura. A gastronomia da Martinica resulta numa história de sobrevivência cultural que se transformou em sofisticação.
O escândalo da clordecona
Por detrás de toda esta paisagem paradisíaca vive-se uma das maiores crises ambientais da história francesa contemporânea. Durante décadas, e apesar de já existirem alertas sobre a sua toxicidade, as plantações de banana utilizaram um pesticida chamado clordecona. O produto contaminou solos, rios e ecossistemas inteiros e estudos posteriores associaram-no a vários problemas de saúde, incluindo elevadas taxas de determinados tipos de cancro. O que se tornou mais polémico foi o facto de o pesticida se ter mantido autorizado nas Antilhas francesas mesmo depois de proibido em território continental francês. Para muitos habitantes, o caso tornou-se um brutal símbolo da desigualdade colonial que ainda persistia entre a metrópole e os territórios ultramarinos, o que causou um forte abalo da confiança nas instituições francesas.
Uma ilha europeia nos trópicos onde quase tudo parece existir em duplicado.
A Martinica continua, pois, a ocupar uma posição única no Mundo. É simultaneamente Caribe e União Europeia, tropical e francesa, crioula e republicana, pós-colonial e profundamente dependente da antiga potência colonial. Os habitantes elegem deputados franceses, usam passaporte europeu e beneficiam do sistema social francês, mas também vivem uma realidade insular marcada por preços elevados, pela dependência económica e por permanentes tensões identitárias. Muitos jovens partem para Paris em busca de oportunidades, enquanto que outros regressam anos mais tarde na tentativa de reconciliar a pertença europeia com a identidade caribenha.
Um lugar onde o passado nunca desaparece
Talvez seja precisamente esta a característica que distingue verdadeiramente a Martinica de tantas outras ilhas tropicais. Aqui, o passado não foi transformado apenas em património turístico ou em folclore. Continua activo, discutido, politizado e emocionalmente presente. A escravatura não é uma memória distante. O colonialismo não é apenas um capítulo histórico e a identidade continua em construção. É possível que seja precisamente essa densidade histórica a grande responsável pelo fascínio que esta ilha exerce sobre quem a visita ou nela vive. Por trás das praias tropicais existe um território intelectualmente vibrante, culturalmente híbrido e historicamente complexo. A Martinica é sem dúvida um lugar onde poesia e política caminharam lado a lado e onde a paisagem vulcânica parece reflectir as próprias tensões humanas da ilha. Não oferece respostas simples, mas algo muito mais raro; uma verdadeira densidade histórica e cultural.