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Uma viagem pela história milenar das estalagens tradicionais do Japão e pela elegância contemporânea do Gora Kadan

Fotos Gora Kadan e D.R.

A história dos ryokan remonta ao século VIII, quando o Japão começou a desenvolver rotas comerciais e de peregrinação que ligavam templos, cidades e centros administrativos. Ao longo dessas estradas surgiram, então, pequenas hospedarias destinadas a acolher viajantes, monges budistas, mercadores itinerantes e funcionários imperiais. Estas primeiras estalagens ofereciam abrigo, refeições simples e um lugar para descansar. Com o passar do tempo, porém, transformaram-se em algo mais complexo, dando lugar a espaços de hospitalidade cuidadosamente organizados, onde a atenção ao visitante se tornava uma parte essencial da experiência. Durante o período Edo (1603–1868), quando o país viveu uma era de relativa estabilidade política, as grandes rotas tornaram-se verdadeiras artérias de circulação. Estradas como a Tokaido, que ligava a atual Tóquio a Quioto, encontravam-se preenchidas por estas estalagens, onde viajantes descansavam antes de prosseguir a sua jornada. Algumas dessas casas sobreviveram durante séculos e permanecem abertas até hoje, testemunhando a extraordinária continuidade da cultura japonesa.

Omotenashi: hospitalidade como filosofia

No coração da experiência de um ryokan encontra-se um conceito central da cultura japonesa, o omotenashi. Frequentemente traduzido como hospitalidade, o termo descreve uma atitude mais profunda; ou seja, a capacidade de antecipar as necessidades do visitante antes mesmo de serem manifestadas. O serviço num ryokan raramente é intrusivo; ao invés, caracteriza-se por uma atenção discreta e quase invisível. O chá chega naturalmente quando o hóspede se instala e os futons já estão preparados ao regressar do jantar. A iluminação, a disposição do espaço e até o silêncio parecem pensados para criar harmonia. Aqui, o luxo não se mede pela ostentação, mas pela delicadeza do cuidado.

A estética do espaço

Os quartos tradicionais, conhecidos como washitsu, reflectem princípios fundamentais da estética japonesa como a simplicidade, o equilíbrio e a ligação à Natureza. O chão é coberto por tatami feitos de palha de arroz. Portas deslizantes de papel translúcido (shoji) deixam entrar uma luz suave que varia ao longo do dia. Em muitas salas existe um tokonoma, um pequeno nicho decorativo onde pode surgir uma pintura, um poema caligrafado ou um arranjo floral minimalista. Durante o dia, o espaço permanece quase vazio, dominado apenas por uma mesa baixa onde se bebe chá ou se servem refeições. À noite, o quarto transforma-se. Os funcionários estendem futons diretamente sobre o tatami, criando um ambiente simples e confortável para dormir. Essa transformação diária do espaço reflecte um princípio estético profundamente japonês, a impermanência.

O ritual do banho

Outro elemento fundamental da experiência é o onsen, o banho em águas termais naturais. Muitos ryokan situam-se em regiões vulcânicas onde estas fontes minerais são abundantes. Antes de entrar na piscina termal, os hóspedes seguem um ritual específico que consiste em lavar cuidadosamente o corpo numa área de duches e só depois se entra na água quente. O banho torna-se, assim, um momento de contemplação. Frequentemente rodeadas por pedras, jardins ou paisagens naturais, estas piscinas permitem relaxar enquanto o vapor se eleva lentamente na noite fria.

A gastronomia da estação

Se o banho purifica o corpo, a refeição alimenta os sentidos. O jantar num ryokan é frequentemente servido ao estilo kaiseki, uma das formas mais refinadas da gastronomia japonesa. Ao invés do prato principal, surge uma sequência de pequenas composições que celebram ingredientes sazonais. O peixe delicadamente preparado, os vegetais locais, os subtis caldos e as discretas sobremesas surgem dispostos com uma precisão quase artística. Cada prato reflecte a estação do ano, transformando a refeição numa narrativa culinária sobre o tempo e o lugar.

A evolução do ryokan contemporâneo

Apesar da sua história milenar, os ryokan não permanecem presos ao passado. Ao longo das últimas décadas, muitos reinterpretaram a tradição através de uma arquitectura mais contemporânea, integrando um design minimalista, novos materiais e um conforto moderno muito maior. A essência, no entanto, permanece a mesma, centrada na hospitalidade personalizada, na ligação à Natureza e num ritmo de permanência deliberadamente mais lento.

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