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Entre o imenso Lago Michigan e um dos skylines mais icónicos do planeta, Chicago construiu uma identidade rara entre as grandes cidades americanas.

Nascida de uma paisagem pantanosa onde em tempos proliferava o alho selvagem, transformada depois num gigante industrial e reinventada após um incêndio devastador, Chicago continua hoje a viver ao ritmo do blues, do desporto e de uma criatividade urbana que atravessa gerações. Na Primavera, quando o gelo recua e os parques voltam a encher-se, a cidade revela talvez o seu lado mais cativante como metrópole vibrante onde a arquitetura, a música e a gastronomia se misturam numa harmonia difícil de replicar.

Entre todos os apelidos de Chicago, nenhum é tão conhecido como o de Windy City e quem num dia de primavera caminha junto ao lago percebe imediatamente a lógica. As correntes de ar vindas do Michigan atravessam as ruas largas e descem entre os arranha-céus com uma notável intensidade. A origem deste apelido é, contudo, mais irónica do que meteorológica. No final do século XIX, os jornalistas de cidades rivais usavam o termo para criticar os políticos de Chicago, acusando-os de serem demasiado faladores e exagerados nas suas promessas, demasiado “cheios de ar”… A provocação acabou por instalar-se e com o tempo os próprios habitantes passaram a usar o apelido com orgulho. Ao longo da sua história, Chicago foi acumulando muitos outros nomes. O termo Second City, popularizado em 1952 pelo jornalista Abbott Joseph Liebling no livro Chicago, The Second City, nasceu como uma observação irónica sobre a posição da cidade face a Nova Iorque. No entanto, os próprios habitantes viriam com o passado do tempo a apropriara-se da expressão, transformando-a num símbolo da capacidade que a cidade teve de reinventar-se após o grande incêndio de 1871. Chi-Town, outra forma pela qual é conhecida, tornou-se uma expressão informal que surge frequentemente na música, no desporto e na cultura urbana.

A cidade do blues

Se a arquitetura define o horizonte da cidade, a música caracteriza o coração de Chicago. No início do século XX, durante a chamada Grande Migração, milhares de afro-americanos migraram do sul rural para o norte industrial. Grande parte desta população instalou-se em Chicago, trazendo consigo o blues do Delta do Mississippi. A música viria a transformar-se nos clubes do South Side. Para competir com o ruído das salas cheias, os músicos passaram a amplificar os instrumentos e a intensificar os ritmos e foi assim que nasceu o Chicago blues, um estilo urbano que nas décadas seguintes influenciaria profundamente o rock. Entre os artistas que definiram essa nova tendência musical destaca-se Muddy Waters, cujo talento ajudou a levar o blues de Chicago às audiências internacionais. A cidade também inspirou o teatro musical. Quem não se recorda do célebre Chicago, peça baseada nos crimes reais da década de 1920 que transformou a cidade num palco de glamour, ambição e ironia?

Estádios que contam histórias

A cultura de Chicago está também fortemente marcada pelo desporto. No basebol, poucos estádios são tão icónicos como o Wrigley Field, a morada dos Chicago Cubs. Construído em 1914, mantém uma atmosfera quase nostálgica, com heras que cobrem as paredes do campo e bancadas que parecem resistir ao tempo. Chicago também adquiriu fama mundial através do basquetebol aquando da era dos Chicago Bulls, nos anos 1990. Liderada por Michael Jordan, a equipa conquistou seis campeonatos e transformou a cidade num símbolo mundial daquele desporto.

O pulsar da cidade

Para verdadeiramente compreender Chicago é, no entanto, indispensável sair do centro e visitar bairros como Pilsen, absolutamente marcado pela cultura mexicana e pela arte urbana, revelando as características criativas e multiculturais da cidade. Já em Hyde Park, onde está situada a Universidade de Chicago, encontramos uma enorme mistura de vida académica, livrarias históricas e elegante arquitetura. Mais a norte, o bairro de Lincoln Park combina zonas residenciais arborizadas com cafés, galerias e acesso direto ao lago. Na verdade, cada um destes bairros funciona quase como uma pequena cidade dentro da metrópole, um reflexo das sucessivas ondas de imigração que moldaram Chicago.

 Chicago à mesa

A história da imigração em Chicago também se conta à mesa e as receitas locais refletem a influência de comunidades italianas, polacas e alemãs que ajudaram a construir a identidade culinária da cidade. O destaque vai. No entanto para o prato mais famoso da cidade; a deep-dish pizza, uma pizza profunda, quase uma tarte salgada, com abundantes camadas de queijo, molho de tomate e recheios. O Chicago-style hot dog é outro clássico, sempre bem servido num pão com sementes de papoila e coberto com mostarda, tomate, pepino, cebola, pimentos e sal de aipo e tradicionalmente livre de ketchup.

Quando a Chicago desperta

Depois de meses de Inverno rigoroso, a chegada da Primavera assume um significado especial em Chicago. Os parques voltam a encher-se de vida e o Millennium Park torna-se novamente um dos pontos de encontro da cidade, não sendo possível ali passar sem assistirmos a alguém que fotografa a famosa escultura espelhada Cloud Gate cuja superfície reflete o skyline como se de um espelho líquido se tratasse. Um pouco adiante, o Art Institute of Chicago, um dos museus mais importantes do país, deslumbra com a sua magnífica coleção que se estende do impressionismo europeu à arte contemporânea. À medida que os dias ficam mais longos, os cafés e os restaurantes reabrem as suas esplanadas, ressurgem os mercados de rua de cada bairro e os festivais passam a anunciar a chegada do Verão, sendo bem claro que a cidade que durante meses enfrentou o frio volta finalmente a respirar.

My kind of town

Talvez seja essa mistura de dureza e criatividade que faz de Chicago um destino tão especial. Nascida de uma planta selvagem, cresceu graças às ferrovias, sobreviveu a um incêndio devastador, reinventou a arquitetura urbana e ajudou a transformar o blues numa linguagem global. Ao longo de mais de dois séculos, chegaram ali gerações sucessivas em busca de oportunidades. Construíram bairros, abriram restaurantes, criaram música, vibraram pelas suas equipas e reinventaram continuamente o lugar onde vivem. E talvez seja por isso que a frase de Sinatra continua a soar verdadeira. Como dizia na canção Chicago is… my kind of town

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